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Aventure-se com Santos

por Mateus em 26 Aug 08 às 22:55

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Engana-se quem está esperando um texto sobre religiosidade, ecumenismo, santidades ou esoterismo.

Milton Santos, geógrafo baiano, um dos expoentes da renovação crítica da geografia, nos fala muito de aventuras. É com este Santos que pretendo embalar a aventura de hoje.

Engana-se quem está achando que este geógrafo é daquele “tipo explorador” das paragens naturais, um naturalista, um estudioso dos “espaços naturais”.

Ele aventura-se muito mais na exploração do inexplorado campo das contradições, dos discursos, do pensamento. E, valendo-se de mais de 40 livros e de dezenas de conceitos -- muitos ainda mal compreendidos -- como “ferramentas exploratórias” (mais do que explicativas ou descritivas), leva-nos longe em seus “passeios”. É provável que, num tempo futuro, seja visto muito mais como contorcionista do que como explorador: porque seu pensamento subversivo talvez seja visto menos como “projeções futuras” ou “utopizações”. Seu pensamento, ao menos em mim, deu nós, esticou, contorceu -- até doer. Dor de angústia, algumas vezes; mas outras tantas de felicidade: feliz por ele ser brasileiro, feliz por ele ser baiano, feliz por ele ser preto, feliz por ele ser ele (parafraseando Caetano ao descrever sua felicidade de reencontrar Gil); feliz por esse pensamento se expressar de modo tão entusiasticamente bonito.

Veja-se o número de ONGs que se criam e que são financiadas para mobilizar a boa vontade e o talento dos jovens, todos voltados para esse endeusamento da natureza, que inclui como slogan a crença de que a natureza sempre foi boazinha, quando freqüentemente ela foi chata e perversa também. Há um papel político nisso, porque esses meninos generosos, que às vezes se dizem a vanguarda da luta por um outro planeta, acabam preocupados com a mãe natureza, pura e simplesmente. (…)
O fato é que os agravos à natureza são sobretudo originários do modo de civilização que adotamos. Será este irreversível? É esta a discussão que se impõe, para evitar ao mesmo tempo as ofensas à Terra e aos homens. Não podemos nos esquecer de que certa pregação ecologista-naturalista acaba por encobrir o processo de produção da globalização perversa. Por isso, os propagandistas-pregadores são largamente financiados pelos que lucram com essa globalização.
” (Milton Santos em Território e Sociedade: Entrevista com Milton Santos. Ed. Fund. Perseu Abramo. p. 19-20)

E se você sente que não vai dar mais pra olhar pro seu trabalho como ambientalista, depois de ler essas poucas linhas, da mesma maneira, então veja só:

Os recursos naturais…se são naturais não são recursos, e para serem recursos têm que ser sociais“. (Idem. Ibidem)

Seja bem-vindo à aventura com Santos!

O Mundo Global Visto do Lado de Cá:

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