Seguindo o rastro dos sonhos
por Mateus em 3 Oct 08 às 21:18
3 Comentários / Arquivado em: Relatos, destaque
Luara Presotti é uma psicóloga ambientalista e aventureira que, quando não está entre estudos sobre racismo, aulas na universidade e debates socioambientais, aventura-se entre aldeias indígenas brasileiras e rastros de animais selvagens. Ultimamente, tem rastreado inclusive seus sonhos. E, por conta disso, foi convidada para integrar um seleto grupo de mulheres rastreadoras e mentoras e para participar de um curso nos Estados Unidos.
Continuamos assim a sessão de relatos de aventuras da equipe de aventureiros convidados a postar no Blog Aventureiro. Ufa… Haja aventura, hein?!
por Luara Presotti
Recebi um convite para participar do staff (equipe de organização) de um curso de Rastreamento e de Consciência Natural e Cultural – um acampamento para meninas, chamado Dreamtracking.
The Tracking Project é o nome da organização que, desde 1986, dá cursos com essa temática para jovens de vários países do mundo, inspirados nos conhecimentos que John Stokes aprendeu vivendo com os Aborígenes australianos e com os povos nativos norte-americanos.
Meu primeiro curso com o John (Stokes) foi em 2000 e, depois de me formar como mentora do Tracking Project, esse novo acampamento seria um ótimo passo. Assim, fui para o Novo México, para as montanhas do deserto, a mais de 8 mil km de distância de casa, no sudoeste dos Estados Unidos. Passei uma semana acampada, com mais um monte de meninas, algumas mulheres e pouquíssimos homens. Rastreamos animais e a nós mesmas, especialmente pelo modo como movemos nossos corpos, nossos pensamentos e nossas ações.
Dançamos Hula e dança asteca; fizemos artes marciais, técnicas de defesa pessoal; fizemos kits de primeiros-socorros com plantas medicinais da região e muita arte (poesia, artes manuais, canto e estórias em volta da fogueira).
Fizemos trilhas, caminhadas silenciosas para ver animais e a chegada das estrelas. Durante os sete dias de acampamento, alguns animais nos visitaram, como veados, ursos, coiotes e alces. Alguns deles nós só ‘vimos’ pelas pegadas, mas outros puderam ser vistos de perto por algumas pessoas.
Um momento muito emocionante do curso é o de fazer fogo da maneira tradicional, como era feito há milhares de anos: com as mãos e usando varetas. Cada vez que você faz um fogo dessa forma, você honra um conhecimento tradicional. O sentimento é como se um filho estivesse nascendo. Quem já tentou sabe que não é fácil, mas o desafio é emocionante. Meu primeiro fogo foi aos 14 anos, com mais 3 outras meninas como eu. Meu segundo fogo foi com mais duas; e agora era a vez de eu fazer um fogo com somente mais uma mulher. Preparei a madeira e o kit para fazer o fogo, e depois achei uma companheira para me ajudar. Comecei a fazer o fogo com uma mulher que estava grávida. Tentamos e suamos por 20 minutos, começamos de novo, e ela ficou muito cansada. Então uma outra mulher entrou em seu lugar, mas depois de mais 15 minutos ela também se cansou. Veio a terceira e, depois de outros 5 minutos, conseguimos fazer o fogo. Eu estava determinada a conseguir o fogo. Ao final, tinha bolhas em minhas mãos. Mas a adrenalina era tanta que eu só as percebi muito tempo depois. Como eu fiquei orgulhosa do meu bebê que nasceu de mim e de mais outras duas mãos, que se revezaram entre si para me acompanhar no parto.
Todos os dias, ao acordar, fazíamos palavras para agradecer ao criador pelas belezas da natureza, começando pelo agradecimento aos povos. Tudo acontecia em círculos, pois no círculo não há começo nem fim, e não há diferença entre os lugares que cada pessoa ocupa. Todos podem se ver e se ouvir.
E assim também eram os círculos dos sonhos, onde compartilhávamos as viagens que nossas mentes faziam quando íamos dormir em nossas barracas, para descansar depois de um dia de muitas atividades.
Para algumas pessoas, os sonhos são viagens, coisas absurdas e sem sentido, que temos. Há pessoas que nem conseguem se lembrar de seus sonhos e que, por isso, pensam que não sonham. Para mim, desde que conheci o Tracking Project, os sonhos têm sido mais uma ferramenta para o meu autoconhecimento, para que eu possa me rastrear melhor por meio dos sentimentos e das mensagens que meus sonhos me trazem. Assim, eu tenho aprendido a não somente rastrear animais, mas a me rastrear, preocupando-me com as minhas ‘pegadas’.
Foram 7 dias de muito aprendizado, e também foi minha primeira semana nos EUA, o que já foi, de cara, a minha semana de adaptação à língua, à comida, aos horários, à altitude, à distancia e às pessoas. Conheci pessoas muito interessantes, muitas meninas que também viam nesse trabalho uma ótima oportunidade de estar em contato com seus sentimentos, aprendendo a viver em paz e harmonia com os outros e com todas as formas de vida.
Quando eu participei, pela primeira vez, de um desses cursos, me vi em muitas delas. Hoje, depois de 8 anos participando, vejo o quanto meus caminhos foram influenciados pelas raízes que me ligam ao chão e que me trouxeram ao lugar onde hoje estou.
Aqui, venho conhecendo um outro lado dos Estados Unidos. O lado que se solidariza com o ódio ao Bush, que não é a favor da Guerra, que anda de bicicleta, que compra alimentos orgânicos em suas próprias sacolas e que, quando leva as do supermercado, só leva se elas forem de papel – e para reutilizar. Aliás, consomem, além de alimentos orgânicos, produtos de limpeza, material de construção e produtos de beleza e de higiene orgânicos, além de incentivarem o consumo de produtos dos fazendeiros locais.
Cada cidade, pequena ou grande, tem sua Farmer’s Market, e as pessoas podem comprar dos seus vizinhos as suas produções. É a lógica do ‘Pense globalmente, aja localmente’ e também a dos ‘3 Rs’ (Reduzir, Reciclar e Reutilizar), que agora ganhou mais um ‘R’, o Rebuy, ou Re-comprar. Garage-Sales em toda parte, e muitas lojas de coisas usadas onde, aliás, eu comprei um casaco de couro por U$ 6.99.
E o que é a América pra você? O que é a América para os Estados Unidos? Muitas vezes referimo-nos aos estadunidenses como ‘americanos’, como se nós mesmos, brasileiros, não o fôssemos. Aqui (nos EUA) já me perguntaram se eu me considero americana – e eu disse que sim –, mas porque continuamos os chamando de ‘os americanos’? E porque eles se referem aos EUA como ‘a América’? Essas são perguntas que eu e mais algumas pessoas nos fizemos um dia desses, entre uma aventura e outra…
Fotos de algumas outras aventuras da Luara:
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2:46 pm on October 20th, 2008
Uau Luara!!!
só de olhar essas fotos já é maravilhoso aos olhos, estar participando desses momentos aventureiros de corpo e alma, com certeza deve ser divino!!!
parabéns por seu trabalho…
eu estou tentando colocar um pouco em prática os ensinamentos de rastreamento..
bjos
6:19 pm on November 20th, 2009
Obrigado por Blog intiresny
11:50 am on March 2nd, 2010
[...] 2008 editamos aqui nO Aventureiro uma matéria chamada “Seguindo o rastro dos sonhos“, em que a Luara contava sobre suas aventuras durante o Dreamtracking, curso realizado com [...]