Volvo Ocean Race

Bem-vindo a África

por Mateus em 23 Jan 09 às 09:52

Number of Comments  6 Comentários / Arquivado em: Luiz Log, Relatos

Bem vindo a África
A nossa história, a minha, a sua, a de qualquer pessoa nesse planeta começa de uma forma ou de outra pela África.

Foi lá que a humanidade teve suas origens, com os primeiros hominídeos no Chad: o australopitecus africanus no Quênia. Depois, ela seria constituída ainda pelos “homus” afarensis, habilis e ergaster, até chegarmos ao nosso “tataravô”: o homo sapiens, na Etiópia.

Isso mesmo! Você é, lá atrás, bem lá atrás, descendente de etíopes…
Foi então que vieram as primeiras populações, como os Khoisan, os Bantos e os Gizas, no Egito. Entre eles surgiram os primeiros indícios de manejo de metal, a matemática e a música (flauta e xilofone), originando assim as primeiras civilizações.
Foi entre esses povos, inclusive, que a humanidade começou a prevalecer e a evoluir sobre as condições ambientais. Algumas teorias sustentam que os povos que habitavam a região do Sahel foram se adaptando ao intenso sol e ao calor, tornando sua pela mais escura e ligeiramente grossa. Foi essa divisão que possivelmente distinguiu a população negra daqueles que posteriormente vieram a ocupar o oriente-médio; e, por conseqüência, os demais continentes.

Uma breve história da África:

O continente africano possui climas diversos e quase sempre hostis: savana, pântanos, densas florestas e desertos. Com isso, apenas 30% do território da África é fertil, forçando intermináveis processos migratórios e disputas que perduram até hoje. Tais interações entre as populações e a natureza resultaram em epidemias, como a Malária e, mais recentemente, a Ébola.
Tantos conflitos e dificuldades ambientais induziram a formação de pequenos grupos, para que pudessem se deslocar com agilidade e resistir aos grandes flagelos. Isso deu origem às tribos e, das lutas pela sobrevivência entre elas, surgiu à escravidão. Exatamente, a escravidão surgiu primeiramente entre os povos africanos…

Foi então que a escravidão negra foi potencializada, a partir da interação entre tribos dominantes e os europeus – pela costa do Atlântico, com a expansão ultra-marítima – e os árabes, pela costa do Índico, a partir de suas rotas comerciais. Houve ainda expedições exploratórias da Índia e da China, que foram muito menos agressivas ao então “continente negro”.
Isso faz que a África, apesar de sua maioria negra, seja também habitada por brancos e orientais. Essa mistura adensou o mosaico religioso: tradições tribais (como o vudú), religiões totêmicas, zoomórficas, o cristianismo, o islamismo e o hinduísmo.

No século XIX, a exploração da África se distendeu em uma forma mais “sofisticada”: o imperialismo. Um bloco de sete países europeus (Portugal, Inglaterra, França, Bélgica, Itália, Espanha e Alemanha) dominou todo o continente africano, deixando apenas dois territórios independentes: Libéria e Etiópia.
Apesar dos diversos maltratos do servialismo colonial, o maior agressão do colonizador a África foi a criação das fronteiras. Os europeus, acostumados a delimitar limites, criaram barreiras onde não existiam e uniram o que parecia impossível. Tais divisões não respeitaram limites culturais ou mesmo geográficos. Se você consultar o mapa do norte da África, verá que algumas fronteiras foram estupidamente traçadas na régua.
Tribos foram cortadas ao meio, grupos aliados afastados e relações de troca interrompidas por fronteiras que existiam apenas na cabeça dos europeus. Por outro lado, tribos desconhecidas entre si ou mesmo inimigas foram forçadamente unidas sob um mesmo território. Exemplo disso, o Moçambique é um país de etnias totalmente diferentes entre norte e sul, cortado ao meio por obstáculos geográficos quase inacessíveis, em especial o rio Zambeze, que costantemente provoca longas cheias que divide e isola diferentes metades de um país demarcado pelo quanto os portugueses puderam alcançar.
Ainda pior, a administração colonial e interesses comerciais na gestão da mão de obra criaram sistemas de classe e seleção étnica, que forçaram conflitos entre grupos que antes eram unidos. O grande exemplo disso, foi a divisão entre Hutus e Tutzis criadas pelos belgas em Ruanda, segregando pessoas da mesma origem étnica por critérios físicos e fisionômicos. Tal sistema era tão primitivo e carente de base científica, que era comum pessoas da mesma família serem separadas ou, ainda pior, o mesmo indivíduo ser classificado de forma diferente em intervalos de poucos dias. Na África do Sul, por sua vez, a segregação racial entre brancos e negros tornou-se política de estado pelo regime do apartheid.

Após a Segunda Guerra Mundial, com o mundo dividido em dois grande blocos políticos (EUA e URSS), muitas nações africanas tornaram-se independentes depois de anos de conflitos sangrentos entre as décadas de 50 a 70. Muitos destes conflitos eram patrocinados pelos blocos contrários ao país dominante daquela colônia, alimentando assim movimentos internos com um enorme processo de armamento e formação de milícias rebeldes.
Resultado disso, foram guerras que dizimaram populações inteiras, destruíram infra-estruturas que até então serviam apenas ao interesse colonial e tornaram independente países sem identidade cultural, unidos tão somente pelo idioma do colonizador e o que restou da infra-estrutura. Em muitos casos, a independência foi seguida por guerras civis, motivadas pela oposição de diferentes guerrilhas dentro do mesmo território.
Moçambique, mais uma vez como exemplo, teve sua independência seguida pelo conflito interno entre  FRELIMO e RENAMO, partidos dominantes respectivamente no sul e norte, um patrocinados por soviéticos e o outro por americanos e sul-africanos. Após anos de guerra civil, o país foi estabilizado com ajuda internacional (incluindo militares brasileiros – CoBraMoz) e as tais voltaram a ser apenas partidos políticos.
Os então líderes destas guerrilhas, na sua maioria militares com pouco estudo, tornaram-se chefes de estado do dia para noite, com a missão de reconstruir países arrasados. Seguindo esse processo de “seleção natural” de líderes políticos pela força, instituíram-se governos extremamente corruptos, tiranos e sucessivos golpes de estado.

Hoje, a precária estrutura política e o fraco desenvolvimento social-econômico da maioria dos países africanos é o resultado de um desastre provocado por toda a humanidade. A África de hoje é o que sobrou da bagunça que outras civilizações provocaram ao continente.
E o que se segue é uma forma de escravidão “evoluída” a um terceiro estágio. A presença internacional no continente se divide por dois viézes. De um lado, a ajuda humanitária internacional, cooperações governamentais e ONG’s, que trabalham na solução de questões emergenciais ou no desenvolvimento de longo prazo. De outro lado, grupos econômicos, empresas e a “diplomacia” governamental (muitas vezes os mesmos que ofecerem ajuda humanitária) com projetos de “progresso” e “capitalização” das riquezas minerais e potencial econômico.
O equilíbrio desta delicada balança depende do desempenho de governos que, como Botsuwana, podem apresentar efetivo desenvolvimento social e econômico, ou como o Zimbábuwe, na qual a política corrupta e desumana retrocedeu a estaca zero um dos principais modelos de desenvolvimento do continente durante os anos 80.

Tudo isso não deprecia em nada o povo africano, pois pelo contrário, mostra o quanto são fortes e cheios de virtude. A África é o continente mais multi-linguístico do planeta, onde mais de mil idiomas e dialetos são falados, em sua maioria ainda limitados a tradição oral. Conheci inúmeras pessoas que falam de uma a duas línguas européias, somadas a mais dois ou três dialetos regionais. Algumas destas línguas, aliás, são misturas entre dialetos e idiomas estrangeiros, como o afrikaans (holandês com dialetos do sudeste da África) e kriolus (português com o dialeto criolo no Cabo Verde).
Isso simboliza em muito os africanos de hoje. Pessoas que tem consciência da importância e orgulho de sua cultura ancestral, mas que assimilaram, por força ou opção, a cultura de um mundo que lhes forçou tantas interações.
Muitos cientistas acreditam que o “elo perdido” dos nossos ancestrais ainda esteja em algum lugar na África. Talvez seja lá também que iremos descobrir os elos perdidos da humanidade hoje. Afinal, se já temos certeza que foi lá que começamos, não sabemos ainda onde por onde iremos acabar…

(Luiz)

Se você quer saber mais da história da África, eis algumas sugestões de leitura:
State of Africa, Martin Meredith (história, em inglês)
Cultura e Imperialismo, Edward Said (história)
Uma História dos Povos Árabes, Albert Hourani (história)
A Era dos Extremos e Era Impérios, Eric Hobsbaw (história)
Filhos da Terra do Sol, Leite Hernandez (história de Cabo Verde)
* Texto revisado por Aurélio Araújo e sugestões de leitura com a colaboração de Rodrigo Silva.

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  1. felipe tavares
    7:53 am on March 11th, 2009

    parabens por esse blog

  2. Dany
    9:45 am on June 26th, 2009

    Eu juro que nao consigui ler quase nada,mas oq eu li foi interessante…

  3. shellyz!nh@
    7:36 pm on November 29th, 2009

    parabens msm por este blong muito bom mais temos q acabar com o racismo q ainda existe no brasil!!!

  4. lian(Ubirajara)
    4:28 pm on February 3rd, 2010

    Abrir um blog falando sobre a Àfrica:superfície,número de países,população.Ou seja,informações e curiosidades,assim o blog fica mais atrativo

  5. Olá Lian,

    tentamos, nos posts dessa série “Luiz Log”, agregar alguns links que podem trazer essas informações e curiosidades de que vc fala…
    Que tal dar uma olhada nos links? Afinal, a internet já tem tanta informação, né? Vamos aproveitar!

  6. andre
    10:17 am on June 15th, 2010

    nossa muito bom isso fez eu ter uma idéia enorme do pais e hoje eu ainda tenho uma prova extra e vo ir bem pois isso aqui me ajudo muito

 
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