Maputo: tudo mudou!
por Mateus em 27 Feb 09 às 18:09
3 Comentários / Arquivado em: Destaque, Luiz Log, Moçambique, Relatos, África
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Continuando a série, chegamos finalmente a Maputo, capital de Moçambique…
Eu sabia que as coisas iriam virar do avesso.
Quando optei por deixar a Europa e mudar-me para a África, estava ciente de minha opção. Eu estava preparado para aceitar mudanças extremas e ser tolerante com uma avalanche (ou seria agora manada?) de diferenças que estavam por vir. Estava a espera de tudo isso… ou quase!
Moçambique fica “do lado de lá” do mundo, voltado para o Oceano Índico. Em Maputo, a maioria negra convive com uma forte presença árabe e de brancos sul-africanos. Além de capital do país, que lhe garante a presença de órgãos públicos e de organizações internacionais, a cidade possui forte apelo turístico e uma infra-estrutura razoável para tal, o que apóia o surgimento de um modesto setor de serviços. Isso na “Maputo de cimento”, pois ao seu redor predomina um enorme bolsão periférico e algumas indústrias. Uma ilusão de lenta e relativa prosperidade…
Fui recebido no aeroporto pelo Langutane, motorista, e Belarmino, gerente de finanças. Curiosamente, viria a descobrir com o tempo que cada um deles representaria para mim aspectos bem diferentes deste povo. O primeiro, exemplo da alegria e capacidade de trabalho dos moçambicanos. O segundo, um típico sanguessuga e preguiçoso, comum nos países sub-desenvolvidos.
Do aeroporto até minha casa, vi da janela do carro os primeiros fragmentos dessa África metropolitana. Prédios antigos e com a pintura gasta predominam na paisagem. No asfalto, muita poeira, buracos, lixo e gente.
Comecei então a sentir as mais evidentes destas mudanças, aquelas inseridas no meio de vida. São mudanças que lhe saltam aos olhos, ou que você sente na pele, no corpo, por dentro e por fora.
Um dos mais sensíveis aspectos na sua adaptação a um novo país é a alimentação. Com o tempo aprendi que a cada diferente lugar que ia, a cada novo tipo de alimentação, nova forma de cozimento e temperos, todos acabavam da mesma maneira: diarréia! Meu corpo “exorcizava” essas diferenças após um ciclo de quatro dias, em média.
Foram nesses momentos de “meditação” que li muito do livro do Dr. Wize, o médico especialista em viagens que nos orientou em Toronto. E com isso tive também de me adaptar a um novo e inesperado detalhe: o papel higiênico… do qual prefiro poupar os leitores de maiores detalhes…
Também desafiador é se adaptar a um novo cardápio. No começo, tudo parece muito interessante e exótico, mas com o tempo você começa a se incomodar com a ausência de alguns produtos e com a qualidade duvidosa de outros, restringindo ainda mais suas já limitadas opções.

Minha casa
Apesar de viver na Polana Cimento, um dos melhores bairros de Maputo, eu tinha apenas dois supermercados próximos de minha casa. Não existem grandes redes de hipermercados (como Carrefour e Wall Mart) e mesmo nas redes locais (Shoprite) o cardápio ocidental é bastante limitado. Eu encontrava uma ou no máximo duas marcas de extrato de tomate, uma variedade de arroz, uma de macarrão, alguns enlatados, poucos cereais, açúcar apenas castanho, produtos portugueses e árabes. Nada de granola, aveia, farinha de mandioca, pão de queijo ou creme de leite, por exemplo.
Eventualmente comprava produtos Sadia, Guaraná Antártica e café do Brasil em uma loja de importação. Encontrar um bom shampoo ou desodorante também eram um problema… E passava longe dos iogurtes. Alguns tinham “validade de um ano” e outros eram vendidos fora de geladeira. Aventura gastronômica é uma coisa, suicídio é outra…
O mesmo problema se refletia para encontrar um restaurante para comer. À exceção dos estabelecimentos turísticos e dos fast-food (aliás, não há McDonald’s, pois quem manda é a KFC), eram poucos os restaurantes que faziam pratos executivos ou comida por kilo. Acabei me acostumando a um lugar que oferecia frango assado, carne de vaca, arroz, fritas e salada de alface e tomate. Desta limitada oferta, eu variava minhas combinações diárias. Meses almoçando todos os dias a mesma coisa…
Mas não posso reclamar de tudo. Verduras, legumes, frutas e frango não eram problema. E encontrava vinhos muito baratos: “sinal de que ou é falsificado ou é mercadoria roubada”, disse-me o Murilo. É dose, posso nem me embriagar de consciência tranqüila.
De imediato senti também diversas mudanças no meio de vida e nas relações sociais. Ao invés daquela sensação de segurança plena que tinha na Suíça, na qual cheguei ao ponto de viajar e deixar a casa destrancada, em Maputo eu vivia numa fortaleza. Para entrar em casa passava por um ritual de três portas, das quais duas tinham grade e cadeado, separadas por uma escadaria. No alto, tinha acesso ao um terraço com vistas para a baía, no qual a porta era fechada por uma barra de ferro.
Apesar de eu ter vigilância 24h por dia, logo entendi que o principal responsável pela minha segurança era eu mesmo. Com todo respeito ao Vitor, Bila e Laurindo, eles não ofereciam proteção de fato. Chamá-los de segurança era como chamar um chiwawa de cão de guarda. Certo dia um deles me disse que: “estamos aqui para ‘testemunhar’ caso alguma coisa aconteça”. Que bom que eles tinham consciência disso…
Na rua, você precisa entender que a relação entre compradores e vendedores vai além da oferta e procura, pois passa também pela necessidade de sobrevivência de cada parte. Não há a quem reclamar, não há direitos do consumidor! Preços e problemas são resolvidos na negociação, na pechincha, por bem ou por mal.
Tive experiências complicadas com encanadores. Aliás, acho que na África houve algum problema no processo de tradução e interpretação do que seja esta categoria profissional. Tenho a ligeira impressão de que encanador, na África, deva significar “demolições”.
Para além disso tudo, tive de me adaptar também a uma série de mudanças no âmbito pessoal. Desde 2006, trabalhava como profissional do Movimento Escoteiro, somado ao ano de 2007 em que, além do trabalho, o escotismo ocupou grande parte de minha vida pessoal. Essa overdose de algo que conheço tão bem em seus valores e conceitos, deu lugar a um novo ambiente de trabalho e valores que, ainda que próximos, eram expostos a realidades completamente diferentes.
Em Brasília ou em Kandersteg, estava cercado de uma ampla rede de amigos: centenas de candangos, pinkies e a Carolina sempre comigo. Agora, eu era um enviado, alguém que desembarca sozinho num país novo, diferente. O único estrangeiro e branco em sua equipe. Sem amigos conhecidos, pessoas que iria reencontrar ou lugares que já havia estado um dia… e a Carolina a 8 mil quilômetros de distância. Estava por minha conta!
Apesar de ter sido bem recebido pelos meus colegas e de que, com o tempo, alguns se tornariam novos amigos, meus finais de semana eram um grande retrato dessa vida revirada ao avesso. Todos meus colegas viviam longe, na periferia, tornando ocasionais alguma companhia aos sábados e domingos. As opções de entretenimento eram quase nulas: um cinema que trocava de filme a cada mês, uma agenda cultural esporádica, poucos eventos esportivos e ofertas turísticas bastante cruéis para quem está sozinho. Com isso, senti tédio no começo. Não havia choppinho nas super-quadras ou Staff Night Out!
Então, ocupei meu tempo em roteiros fotográficos, leituras e trabalho adicional. Procurei ver essas coisas todas pelo lado positivo. Encarei tudo isso como, mais do que um desafio, uma oportunidade também. Um tempo, no silêncio e na solidão, para conversar mais comigo mesmo, desenvolver idéias que estavam a minha espera e viver outro ritmo de vida que, ainda que diferente para mim, era comum a todo um povo.
De alguma forma então, estava vivendo um novo começo difícil. Diferente, mas igualmente difícil em vários aspectos. Os sinais eram menos evidentes, mas eu sentia isso muito bem… Aquele inverno em Kandersteg me preparou para tal. Ao invés de neve, um começo de calor e poeira…
(Luiz)
Para saber mais sobre Maputo: www.kanimambo.com
Sugestão de leitura: The Travel Doctor, Mark Wize md.
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10:32 am on March 15th, 2009
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5:09 pm on June 18th, 2009
hi i like Maputo is beautiful,is very nice i liked the visit Maputo thanks
3:19 pm on January 27th, 2012
Mentiroso de uma figa..