Planeta B612
por Mateus em 15 Mar 09 às 10:31
2 Comentários / Arquivado em: Destaque, Luiz Log, Moçambique, Relatos, África
O último post da série LuizLog foi "Maputo: tudo mudou!". Se você quer ver todos os posts da série, clique aqui.
Continuando a série, vamos ver como transformar uma simples tarefa cotidiana em um tratado antropológico…
Certo dia decidi que iria cortar o cabelo.
Perguntei aos meus colegas onde poderia fazer isso, perto de minha casa. Eles me indicaram alguns lugares, mas percebi um certo constrangimento, uma certa dúvida. Um deles tentou me convencer a ir num salão um pouco mais caro e mais longe… mais tarde entendi por que.
Fui ao “Salão Princesa”, na avenida Salvador Allende. Tudo parecia um salão de barbeiros como outro qualquer, com bastante sujeira no chão, jogo de futebol na TV e alguns clientes sentados lendo jornal. Essa normalidade foi quebrada pela minha entrada: senti um olhar tenso sobre mim, tanto dos clientes, quanto dos barbeiros.
Os sujeitos aliás, eram figuras bastante curiosas: o primeiro um magricelo de bigodinho tipo indiano, com uma bata apertada em seu corpo. O segundo, um baixinho com band-aid amarelo na cabeça, vestindo uma bata que se arrastava no chão (será que ele não trocou de bata com o primeiro?). O terceiro, um gordão, quietão, compenetrado na barba de seu cliente. Só não entendi porque o salão se chamava princesa. Seria princesa Fiona?
Quando chegou minha vez, sentei na cadeira e fui muito bem tratado: colocaram-me o avental, guardaram meu óculos delicadamente na gaveta e me ofereceram uma revista. Sem vacilar, mas com um olhar duvidoso, o gordão me perguntou: “como vai ser”?
O que viria depois dessa pergunta me fez entender que o constrangimento de meus colegas e esses olhares na minha entrada eram o presságio de algo que as pessoas evitaram até o último momento em me contar: eles não tinham tesoura!
Não adiantava eu pedir para cortar “na largura do dedo” em cima, aparar a franjar, reduzir o volume, coisa e tal. Não tinha dessa, não era assim… os camaradas eram barbeiros sim, mas trabalhavam apenas com máquina e navalha. Olhei em minha volta e entendi a situação. É um país de negros, um bairro de negros, um salão de negros. Desde quando negão precisa de tesoura para cortar o cabelo?
Lembrei de um exercício mental que fizemos em Toronto: entender, adaptar e assimilar. Então, fui direto e reto: OK! Máquina 2!
Essa experiência foi muito importante para mim. Ajudou-me a entender, de uma maneira singela e delicada, que não havia nada de errado com aquele mundo. Ajudou-me a assimilar melhor essa série de mudanças e de diferenças que eu estava vivenciando.
Este lugar, repleto de problemas, sim, mas de coisas boas também, não era nem melhor, nem pior que a Suíça, o Brasil, ou qualquer outro país. Moçambique e a África eram apenas diferentes. Na verdade, diferente era eu!
A cor de minha pele, meu cabelo liso e toda minha base cultural eram sinais externos de diferenças muito maiores. E se eu tinha de me adaptar a uma situação tão simples e cotidiana, quantas outras situações mais difíceis e complexas eu iria enfrentar?
Era então uma mensagem cifrada: “Luiz, você chegou onde queria”. Eu queria inverter as coisas, comparar os opostos. Era exatamente onde eu estava: sou um mulungo na África!
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4:58 pm on March 15th, 2009
Mano, tive que ser confundido com Moroco (palavra holandesa pra “malaco”, brincadeira, marroquino) pra sentir preconceito e começar a entender o que é racismo cara…eu entrei em loja e todos olharam pra mim uma dezana de vezes…muito forte. Nos finalmentes a sensação foi exatamente a mesma, nada é melhor, é diferente…
9:11 pm on June 26th, 2011
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