Entre a pedra e o pulso
por Mateus em 9 Nov 09 às 01:35
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Aventureiros e aventureiras que gostam de boas leituras provavelmente já conhecem a revista “Go Outside”, filha da antiga norte-americana “Ouside”. Durante o já distante ano de 2006, esta revista republicou uma série de “matérias antológicas publicadas ao longo dos 30 anos” da revista-mãe. Uma delas realmente me surpreendeu, tanto pelo poético título “No meio do caminho tinha uma pedra“, quanto pela chamada:
O perrengue pelo qual passou o norteamericano Aron Ralston quando teve seu braço esmagado por uma pedra dentro de um cânion remoto.
Resolvi começar a ler, ainda incrédulo, e aproveito para republicar alguns dos trechos que mais me chamaram a atenção (na ordem em que aparecem no relato original).
Pra quem quiser checar outras informações, talvez valha esperar pelo filme do diretor Danny Boyle, que prometeu para 2010 um filme chamado “127 horas”, em que narra a aventura de Aron tal como descrita no livro “Between a Rock and a Hard Place” (ISBN 0-7434-9281-1), publicado pela Atria Books em 2004 e ainda sem tradução para o português brasileiro. Ou, para ver o próprio Aron descrevendo como conseguiu amputar o braço, vale conferir o bizarro vídeo no fim desse post:
SÃO 3h05 DO DOMINGO. Com isso completo 24 horas preso no cânion Blue John. Meu nome é Aron Ralston. Meus pais são Donna e Larry Ralston, de Englewood, Colorado, Estados Unidos. Quem achar esta fita, por favor tente entregá-la a eles. Faça isso. Eu agradeço.” É 27 de abril de 2003 e pela primeira vez desde que meu braço ficou preso contra o paredão deste cânion em Utah, estou usando minha câmera digital para filmar a mim mesmo.
Os três segundos seguintes passam em câmera lenta. A pedra cadente bate em meu braço esquerdo contra o paredão sul. Puxo esse mesmo braço quando a rocha ricocheteia no espaço confinado. Ela então esmigalha minha mão direita, que estava com o polegar para cima e os dedos estendidos. A rocha escorrega mais uns 30 centímetros, rebocando meu braço com ela, arrancando a pele. Então, silêncio.
Ao final de 2002, já havia escalado os “fourteeners”, 36 deles sozinho no inverno. Quanto mais avançava no meu projeto, mais aprendia sobre mim mesmo. Escalada solitária no inverno não era só algo que eu fazia -- tornou-se quem eu era.
Eu me testava em rotas cada vez mais difíceis, mas também desenvolvi estratégias para mitigar os riscos adicionais de viagens no inverno. Ainda assim, houve vários quase-desastres que me levaram a reavaliar minhas práticas.
“Não!”, digo para mim mesmo em voz alta. “Cala a boca, isso não ajuda em nada.” Não é com minha mão que preciso me preocupar. Tem uma questão mais importante. O tempo médio de sobrevivência no deserto sem água é entre dois a três dias, às vezes não mais que um dia se você se esforçar sob um calor de mais de 40 graus. Calculei que tinha até segunda à noite.
8 DA NOITE. O ESTRESSE VIRA PESSIMISMO. Sem água suficiente para esperar por resgate, sem uma picareta para quebrar a pedra, sem um sistema de roldanas para erguê-la, só tenho uma opção. Falo lentamente em voz alta: “Você vai ter que cortar seu braço”. Ao ouvir essas palavras, meus instintos e emoções se revoltam. Minhas cordas vocais se tensionam e minha voz muda uma oitava: “Mas eu não quero cortar fora meu braço”. “Aron, você vai ter que cortar fora seu braço.”
Percebo que estou discutindo comigo mesmo e dou uma risadinha. Isso é loucura.
Mas eu estou pronto para agir, não para morrer. É hora de arrumar uma ancoragem melhor, que eu possa usar para montar um sistema capaz de mover essa rocha. Parece que tem uma pequena protuberância triangular numa prateleira uns dois metros acima de mim. Mas minhas tentativas de jogar uma correia sobre a protuberância vão por água abaixo. A correia se solta todas as vezes.
São 3h35 da tarde. Preciso urinar. Poupe sua urina, Aron. Mije no CamelBak. Você vai precisar. Transfiro o conteúdo da minha bexiga para meu reservatório vazio de água, poupando o líquido marrom-alaranjado para a desagradável, mas inevitável hora em que ele seria o único líquido à minha disposição.
DIA QUATRO: TERÇA-FEIRA, 29 DE ABRIL, 5 DA MANHÃ. Mais ciclos. Escuridão. Frio. Estrelas. Espaço. Tremedeiras. Sobraram menos de 100 ml de água. Coloco a garrafa entre minhas pernas e desenrosco a tampa. Mas, quando levo a garrafa até minha boca, a tampa fica presa na cadeirinha e a garrafa escorrega. Meu cérebro, lento como uma lesma, reage devagar demais para que minha mão a pegue antes de ela ficar quase em posição horizontal e um monte daquela água sagrada caia nos meus shorts, transformando a poeira vermelha em uma lama brilhante. Porra, Aron. Presta atenção! Olha só o que você fez! Água é tempo. Essa derramada me custou quantas horas? Talvez umas seis, talvez umas dez, talvez metade de um dia? Esse erro atropelou minha confiança como se fosse um trem.
Atualizo a contagem de horas na minha mente: 96 horas de privação de sono, 90 horas preso, 29 horas que venho bebendo minha urina e 25 horas sem água fresca. Não sinto nada com isso, apenas reconheço os fatos.
Onze da noite. O cânion está parecendo uma geladeira. Esses ventos são assassinos. Só se passaram duas das novas horas de frio e escuridão antes de decidir fazer uma anotação final. Meu relógio confirma que é 30 de abril, por pelo menos mais uma hora. Sobre as quatro letras do meu nome, ARON, arranho na rocha vermelha, OUT 75. Debaixo do meu nome, complemento: ABR 03.
Eu não o quero mais. Não faz mais parte de mim. É puro lixo. Jogue isso fora, Aron. Livre-se dele. Eu me debato para frente e para trás, de um lado para o outro. Grito de puro ódio, soltando berros estridentes enquanto bato meu corpo contra os paredões do cânion, perdendo toda compostura que tinha lutado tanto para manter. E então sinto meu braço se torcendo de forma não-natural sob a imóvel chockstone. Sou atingido por uma epifania, pela magnífica glória da intervenção divina, pondo um fim ao meu ataque: se eu torcer o meu braço o bastante, posso quebrar os ossos do meu antebraço. Como se fosse um pedaço de madeira, eu posso torcer meu maldito braço até ele partir no meio! Jesus Cristo, Aron, é isso, é isso. É ISSO, PORRA!
Suando e eufórico, toco meu braço direito mais uma vez. Ambos os ossos se quebraram no mesmo lugar, logo acima do pulso. Estou transbordando de excitação. Ansioso para pegar a lâmina mais curta e afiada do canivete suíço, esqueço completamente de armar o torniquete que preparei e coloco a ponta cortante no meu pulso, entre duas veias azuis. Empurro o canivete contra meu pulso, assistindo enquanto minha pele se estica até que a ponta finalmente a atravessa e afunda até o cabo. Em um mar de dor, eu sei que o trabalho está só começando. De relance vejo a hora, 10h32. Ok, Aron, aqui vamos nós.
Embora estes trechos sejam, para mim, significativos, recomendo a leitura integral da matéria, no site da “Go Outside”, que contém todas as edições publicadas, desde a primeira!
psiu. Este post também poderia se chamar “Entre a cruz e a espada”, para continuar no mesmo do tom do livro de Aron (veja aqui o que significa a expressão “Between a rock and a hard place“), mas achei que soaria meio fora de contexto…hehe.
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